O bom de viajar sozinho

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Em fevereiro do ano passado, Marina Menegazzo e Maria Jose Coni, dois jovens argentinos de 21 e 22 anos, foram assassinadas enquanto viajavam pelo Equador. Alguns meios de comunicação apontaram na crónica dos feitos que as meninas ‘viajavam sozinhas’, entendendo-se por ‘viajar sozinha’ fazê-lo sem o acompanhamento de um homem. O feminicídio destas duas meninas e o tratamento midiático que se deu fez com que muitas mulheres reivindicaran seu direito a percorrer o mundo livremente, acompanhadas ou na solidão, e a divulgação da campanha #ITravelAlone. Mas, o que diz de nossa sociedade que viajar só sendo mulher seja um ato revolucionário?


Às vezes, o Google e seus algoritmos têm a capacidade de refletir a sociedade, de fazer as vezes de espelho digital que plasma técnica do chiaroscuro do mundo contemporâneo. Assim, quando escrevemos na barra de busca “Tenho mais de 18 anos’, Google autocompleta ‘e nunca tive namorada’, mas quando ‘googleamos’, ‘Tenho 50’ anos faz o mesmo com ‘eu posso me aposentar’.


A lacuna de gênero, como não podia ser de outra forma, também fica patente na pesquisa desenvolvido por Larry Page e Sergei Brin. Se buscamos ‘Viajar sozinho’, o Google nos retorna o resultado padrão ‘barato’, enquanto que, se procuramos ‘Viajar sozinha’, há o próprio autocompletando ‘Tailândia’ e ‘Marrocos’, dois países para os quais se supõe que uma mulher não deve ir sem companhia. E por empresa, como acontecia no caso do tratamento mediático do feminicídio das jovens argentinas, entende-se companhia masculina.


O mesmo acontece com o conteúdo dos artigos recomendados pela plataforma de pesquisa. Se um homem recorre a ela em busca de conselhos para viagens e passeios solo (especificando o seu gênero com o-e final-, dar dicas sobre os destinos mais baratos, tours organizados ou plataformas para conhecer pessoas. Se, pelo contrário, é uma mulher que se identifica como tal na hora de pesquisar, vai encontrar uma infinidade de listas com os países mais seguros ou dicas para ‘superar os medos’ antes de embarcar em uma viagem em solitário.


Perguntamos Inês Nunes, co-fundadora do blog de viagens Random Trip, sua opinião a respeito.”Que tenha um monte de artigos sobre mulheres que viajam sozinhas diz-me, fundamentalmente, de duas coisas. A primeira, que será melhor, porque há cada vez mais mulheres que o fazem, e o fato de contar suas experiências incentiva outros a fazê-lo. Ao final viajar nos empodera e nos faz mais livres. Por outro lado, que tenha a necessidade de encorajar-nos a viajar sozinhas, reflete que ainda é visto como uma conquista. Uma mulher viajando sozinha é tema do que falar quando um homem viajando sozinho não. Provavelmente ele destacam-se as aventuras por que tem passado, e países que visitou… enquanto que a nós se nos perguntam muito por questões de segurança, medos, países mais adequados para fazê-lo…”


Mônica Hernandez, jornalista, repórter de ‘Comando atualidade’, autora do blog Missuniversos e co-autora de ‘Viajantes’, um manual elaborado por seis mulheres cuja paixão é viajar pelo mundo, nos conta das razões que leva anos viajando sozinha e incentiva todo mundo a fazê-lo. “Quando você se vai, sozinha, todas as situações são diferentes, tudo acontece com você, realmente, ir única: conhecer pessoas pelo caminho, que te ajudem a descobrir o lugar, que te falem de si mesmos… Se for com outras pessoas você se concentrar mais na empresa do que no que realmente você está vendo ou vivendo”.


Mas, quais são as situações embaraçosas viveram essas duas mulheres pelo fato de percorrer o mundo sem companhia? Mônica conta-nos que, realmente, não tem enfrentado nenhuma situação motivada por seu gênero, que não se possa dar também dentro de nossas fronteiras. “A vítima do machismo sinto-me em minha própria sociedade, em Portugal, na Europa, no Ocidente. Basta ver como ele trata as mulheres, nos anúncios publicitários, a linguagem que utilizamos, as diferenças salariais entre homens e mulheres, a violência de gênero… já vejo mais muito machistas ao meu redor que eu gostaria, sem mudar de casa”.


Os conselhos de ambas? Aplicar o senso comum, não como mulher, mas como pessoa. “Não faça nada que não faria se estivesse em seu próprio país”, aconselha Mônica Hernandez. Inês Nunes, por sua vez, recomenda a não carregar muito a mochila, deixar de lado os preconceitos e ser feito com um cartão SIM do país que se visita. E, se os testemunhos não fossem suficientes, ambas nos recomendam leituras viajantes para nos encorajar, definitivamente, a praticar o #TravelAlone: a biografia da aviador Amelia Earhart (recomendação da Mônica) e ‘A volta ao mundo em 72 dias’, de Nellie Bly.


Se você se interessa pelo tema, não perca a conferência TravelTalks: Viajo Sozinha, B The Travel Brand (Rua Miguel Ângelo, 33, Madrid). Será realizada em 24 de março às 19h30 e serão expostas as experiências de diferentes viajantes e as particularidades de viajar só sendo mulher. A fotógrafa fotógrafa Rosa Martinez, fundadora do coletivo ‘Viajo Sozinha’, dar passagem para os diferentes depoimentos e debates.

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